ADOLESCENTES DIFICEIS- VOCÊ TEM UM? CASO- MARGO ( LIVRO: CIDADES DE PAPEL)

Contexto Geral da Adolescência

Tendo em vista o aproveitamento da leitura do livro Cidades de Papel, de John Green — há uma resenha muito interessante aqui no blog (👀 olha lá) —, podemos falar sobre aqueles que vivenciaram ou estão vivenciam o processo de uma adolescência “difícil”. Nessa fase, o desenvolvimento neurológico apresenta avanços importantes relacionados à lógica, o adolescente passa a enxergar pontos de vista diferentes daqueles apresentados pelos pais e, algumas vezes, conflitantes. Também consegue integrar e coordenar diferentes perspectivas de maneira mais coerente e congruente.

Quanto à questão afetiva, os adolescentes tendem a querer participar e cooperar nos grupos e, simultaneamente, conquistar autonomia pessoal. Podem apresentar ambivalência em seus sentimentos e interesses mutáveis, que tendem a se dissipar gradualmente conforme ocorre o amadurecimento. No aspecto cognitivo, além das habilidades adquiridas na infância, que continuam sendo aprimoradas, desenvolve-se a capacidade de reflexão: pensar antes de agir, considerar as consequências, recuperar o passado e antecipar o futuro. Progressivamente, o adolescente desenvolve a capacidade de abstrair e generalizar, criando teorias sobre o mundo que o cerca.

Neste artigo, é importante compreender que a adolescência não deve ser vista apenas como uma fase problemática, marcada por rebeldia, conflitos e alterações hormonais. Ela deve ser compreendida como uma oportunidade de nos achegarmos aos adolescentes, tocarmos em seus afetos e em suas emoções, fortalecermos nosso relacionamento com eles e os conduzirmos à vida adulta da maneira mais tranquila possível.

1. É natural ter uma forte necessidade de autonomia e identidade

Autonomia e liberdade são os alvos que Margo busca. A adolescente, que apresenta o estereótipo de jovem rebelde e preocupa os pais, foge de casa dos 13 aos 18 anos, mas não para obter drogas, cometer crimes ou viver impulsivamente. Nesse caso, ela busca lugares abandonados para ficar sozinha e escrever. Isso sugere que ela foge de sua própria realidade, e essa fuga funciona como:

  • tentativa de obter liberdade;
  • afastamento das expectativas familiares e sociais;
  • tentativa de descobrir sua própria identidade.

O comportamento parece ser mantido pelo reforçamento negativo: fugir reduz temporariamente o sofrimento, a sensação de aprisionamento ou a obrigação de atender às expectativas dos familiares e amigos. Não adianta apenas exercer controle sobre os comportamentos desagradáveis ou tortuosos do adolescente, é necessário dar-lhe espaço para suas tentativas de autonomia, mas também ensiná-lo a se submeter à liderança dos pais fundamentada no amor e na confiança.


2. Idealização do desconhecido (típica do adolescer)

A personagem adolescente do livro cria uma imagem muito idealizada do “outro lugar que encontrará”. Em vez de enfrentar os conflitos da vida cotidiana, investe emocionalmente em novas possibilidades e em uma identidade diferente. O pensamento implícito pode ser: “Quando eu encontrar esse lugar, finalmente serei quem devo ser, então, estarei bem”. Esse tipo de idealização é comum na adolescência, quando a identidade ainda está em formação. Por isso, os adolescentes sentem a necessidade de uma referência — um líder —, mas isso deve ser construído gradualmente desde a infância, qual imaginário foi construido na infância? (essa pergunta vai te nortear), pois dependendo dessa resposta agora temos a resultante das idéias inculcadas na criança.


3. O adolescente buscará formas de se autorregular

No caso de Margo, o fato de a adolescente escrever cartas e permanecer escrevendo sugere que a escrita funciona como:

  • organização do pensamento;
  • elaboração emocional;
  • expressão de sentimentos difíceis.

Tenha cuidado ao repreender um adolescente quanto a sua maneira de se autorregular, considerando tanto o conteúdo da repreensão quanto a maneira como ele a compreenderá. No caso da personagem, a escrita tem a função de substituir outras formas de enfrentamento potencialmente mais destrutivas, os adolescentes podem escolher uma “persona” para ajudá-los a realizar enfrentamentos. Aproveite-se disso positivamente para caminhar com o adolescente e ajudá-lo em seus enfrentamentos, entenda esse ponto da autorregulação e faça disso uma oportunidade para conexão.


4. Busca de autenticidade

Ela demonstra incômodo com a superficialidade. Parece ter se cansado de uma vida baseada apenas no cotidiano (rotinas, aparências e expectativas). Há uma necessidade intensa de viver algo percebido como verdadeiro, mesmo que esse “algo não tenha profundidade ou constância. Ainda é impulsiva, não percebe que a constância e a maturidade vem com o tempo, é imediatista e tudo para é para “sempre” ou “nunca”. Tenha paciência isso de fato é uma fase.


5. Ambivalência nas relações

Ela foge, mas deixa pistas para que Quentin, seu amigo e vizinho de infância, a encontre. Isso indica uma ambivalência em suas tensões internas: “Quero desaparecer, mas realmente quero que alguém me encontre.” Nunca abandone seu adolescente, dê espaço, mas não desista!

Alguns adolescentes não chegam a romper completamente os vínculos. A adolescente do livro apresenta um comportamento comum nessa fase: preserva a possibilidade de ser compreendida. Os adolescentes frequentemente deixam brechas para que nos aproximemos.


6. Vestuário, aparência e cuidados pessoais

Durante as fugas, a garota permanece sem tomar banho, suja e vivendo em locais abandonados, o que representa uma forma de autoabandono. Isso pode indicar que, naquele estado psicológico, a busca por significado e liberdade ocupa um lugar muito mais importante do que o conforto físico. Entretanto, isso não implica necessariamente a existência de um transtorno mental. Estabeleça sempre uma comunicação respeitosa e tranquila a respeito dessa área, essa construção relacionada ao vestuário antecede as questões morais.


Do ponto de vista do desenvolvimento

Na adolescência, é comum que a dinâmica do crescimento reflita conflitos que podem reverberar nos seguintes aspectos:

  • identidade × meus papéis sociais;
  • dependência dos pais × autonomia diante dos pais;
  • realidade × idealização;
  • pertencimento ao grupo familiar e a outros grupos × individualidade.

As questões mencionadas anteriormente fazem parte da vida cotidiana e devem oportunizar o ensino, em vez de criar conflitos entre pais e filhos.


Quando devo me preocupar se meu adolescente está desenvolvendo um transtorno mental?

Descrições isoladas a respeito dos comportamentos dos adolescentes não indicam necessariamente transtornos mentais, mesmo que esses comportamentos possam compor determinados quadros clínicos. Eles podem ocorrer em situações como:

  • crise intensa de identidade na adolescência;
  • conflitos familiares importantes;
  • traços de personalidade marcados pela busca de novidade, independência e introspecção.

Esses comportamentos podem não fazer parte do curso de um transtorno mental, embora também possam aparecer em alguns transtornos de personalidade ou de humor. Entretanto, seriam necessários muitos outros elementos — funcionamento global, relacionamentos, humor, impulsividade, história clínica, entre outros — para considerar essa hipótese.

Olhe atentamente para o seu adolescente e tenha disposição para observar:

  • os motivos de cada fuga emocional — esteja prontamente disposto a escutar as razões apresentadas por seu adolescente;
  • a existência de violência, negligência ou controle excessivo em casa — analise isso honestamente;
  • o humor antes, durante e depois das situações — os pais devem comunicar-se estavelmente com o filho;
  • o sono e a energia corporal — frequentemente, não se trata de preguiça ou má vontade, pois o corpo passa por muitas mudanças hormonais;
  • o histórico de automutilação ou ideação suicida — observe se houve ou se há indícios desses sinais ou sintomas;
  • o desempenho escolar e as relações sociais — acompanhe-os proximamente e sensivelmente, ajudando nas dificuldades e lembrando que ajudar não significa apenas exigir;
  • a impulsividade — ela faz parte dessa fase, mas deve ser acompanhada e limitada adequadamente;
  • a presença de agressividade, mentiras, furtos ou violações dos direitos alheios — o adolescente deverá sofrer as consequências de seus atos e ser devidamente ensinado;
  • os prejuízos e riscos produzidos pelo comportamento — os pais devem proteger seus adolescentes, acompanhar suas companhias e perceber antecipadamente os sinais de alerta e os possíveis prejuízos.

No caso de Margo, a adolescente de Cidades de Papel, a leitura mais coerente é a de uma personagem com conflitos intensos de identidade, idealização da liberdade e esquiva das expectativas sociais — e não a de uma personagem claramente construída para representar um diagnóstico psiquiátrico específico.

Se você tem dúvidas, sente-se desamparado como pai ou mãe, ou é o próprio adolescente, busque prontamente a ajuda de um profissional da saúde mental, como um psicólogo.