EMOÇÕES: O QUE É NORMAL E “ANORMAL”?

O que tenho sentido é normal? Pode ser uma fase? Vai passar ou será permanente?

Já sentiu ou pensou isso? Quero compartilhar com você uma reflexão sobre a fronteira entre o que é considerado normal e o que é considerado patológico — e sobre quando devemos procurar uma avaliação profissional.

Estima-se que uma parcela expressiva da população mundial apresentará, em algum momento da vida, sintomas relacionados à saúde mental. Isso, por si só, não deve ser interpretado como sinal de que existe um transtorno. É normal atravessarmos períodos de sofrimento, preocupação e angústia. Porém, se esses sintomas persistirem por muitas semanas, intensificarem-se ou começarem a prejudicar a rotina, pode ser necessário procurar um profissional de saúde mental. Afinal, o que caracteriza um comportamento como patológico?

A definição de que anormal é aquilo que está fora da norma relaciona-se ao modelo médico tradicional, que busca identificar sinais observáveis de doença. Nesse contexto, saúde refere-se a um estado de funcionamento próximo da média estatística ou de um ideal, isto é, dentro dos padrões considerados aceitáveis por determinada sociedade. Contudo, é um equívoco reduzir a saúde mental a uma divisão rígida entre normal e anormal. Alguns acreditam, inclusive, que a verdadeira saúde mental seja a exceção, e não a regra.

Por isso, alguns cientistas comportamentais avaliam não apenas se determinado comportamento é frequente ou incomum, mas também se ele é adequado ao contexto e quais consequências produz na vida da pessoa. Nesse sentido, merecem atenção os comportamentos que diminuem a qualidade de vida do indivíduo. Entre os aspectos que podem ser observados, estão:

  • Sofrimento pessoal;
  • Modo como a pessoa percebe o mundo no qual está inserida;
  • Capacidade de exercer autogoverno e controle sobre si mesma;
  • Visão de si mesma e dos outros;
  • Capacidade de empatia e aceitação;
  • Capacidade de formar e manter relacionamentos afetivos estáveis;
  • Funcionamento e produtividade nas diferentes áreas da vida.

Ao longo do tempo, profissionais e pesquisadores organizaram conjuntos de sinais e comportamentos associados aos transtornos mentais. Essas classificações podem ser encontradas em manuais como o DSM, publicado pela Associação Americana de Psiquiatria, e a CID, elaborada pela Organização Mundial da Saúde. Entretanto, a presença de um comportamento isolado não é suficiente para estabelecer um diagnóstico. É necessário avaliar sua intensidade, frequência, duração, contexto e consequências, além do sofrimento e do prejuízo funcional produzidos na vida da pessoa.

Há uma questão maior a ser discutida: os comportamentos mudam de significado conforme a cultura. Surge, então, o dilema da relativização daquilo que uma sociedade considera verdadeiro, real e normal e daquilo que classifica como engano, irrealidade ou anormalidade.

Vivemos em uma sociedade na qual valores e referências se modificam constantemente. Zygmunt Bauman, autor de Modernidade Líquida — livro cuja leitura recomendo —, expõe como a liberdade e o relativismo sem precedentes também podem produzir uma espécie de patologia na alma, marcada pela falta de referências e de solidez moral e ética. Esse livro me ajudou a compreender por que precisamos avaliar a sociedade e a cultura antes de patologizar toda forma de sofrimento ou comportamento divergente. Nessa narrativa moderna de flexibilização extrema, instala-se uma insegurança quanto ao significado daquilo que sentimos.

O indivíduo precisa adaptar-se continuamente a critérios que mudam, inclusive no que se refere aos padrões comportamentais e morais. Nesse cenário, a estabilidade parece cada vez mais difícil de alcançar. Dificuldades que, em outros tempos, poderiam conduzir à resignação, à perseverança e ao amadurecimento em meio aos conflitos hoje são frequentemente recebidas com inquietação, ansiedade e pouca tolerância ao desconforto. Diante disso, cresce a expectativa de que sempre exista uma solução imediata — ou uma pílula capaz de acalmar os “ânimos”.

Dar um nome a um conjunto de sintomas pode trazer alívio temporário, entretanto, o diagnóstico não deve encerrar a compreensão sobre a pessoa nem substituir o trabalho diário de construir e ajustar seu mundo interior. Somos complexos. Por isso, a compreensão desse mal-estar generalizado pode exigir uma abordagem que considere conjuntamente as dimensões biológica, psicológica, social, cultural e espiritual da vida humana.

Mais importante do que simplesmente encontrar um nome é compreender o grau de sofrimento, a duração dos sintomas, o contexto no qual aparecem e os prejuízos que produzem. Quando o sofrimento persiste, compromete a rotina ou parece difícil de administrar sozinho, buscar ajuda profissional não é exagero: é uma forma responsável de cuidado.

Você se sentiria melhor ou pior se essas experiências fossem diagnosticadas como uma “anormalidade psicológica”?

Esse livro foi o citado no texto, vale leitura porque nos dá condições de avaliar o contexto onde estamos inseridos para conseguir compreender melhor as condições em que vivemos na modernidade. Tenha a experiência de responder o questionário para um auto-conhecimento. (disponibilizo abaixo gratuitamente)

Abaixo um questionário de auto-exame com perguntas para te ajudar!

OBSERVAÇÃO: Este questionário é destinado à reflexão e à auto-observação. Não constitui instrumento de avaliação psicológica, diagnóstico ou substituição de atendimento profissional.